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NOVES FORA, QUANTOS?
José Carlos Jacintho de Campos - 16/10/2016

Quando meditava acerca do assunto para esta crônica veio-me à memória uma prática do meu saudoso pai. Ele era Guarda-Livros e como tal estava sempre envolvido com grandes somas de valores cuja totalização teria que ser exata. Hoje poucos sabem o significado desse cargo, muitos acharão que Guarda-Livros se trata de alguém que cuidava do acervo de uma biblioteca ou algo parecido. Nada a ver, o Guarda-Livros de outrora vem a ser o Contabilista dos nossos dias, cujos profissionais, a nível técnico ou superior, têm a importante função de registrar com exatidão as movimentações patrimoniais e as transações financeiras de uma entidade, pública ou privada, com ou sem fim lucrativo.

 

Naquele tempo as somas dos valores dessas transações eram efetuadas manualmente tendo em vista a dificuldade da portabilidade das máquinas para essa finalidade. Era um trabalho que exigia uma capacidade mental muito grande quando se tratava de uma grande quantidade de números a serem somados. Dadas as grandes possibilidades de erro, geralmente se repetia a tarefa para confirmar se o somatório estava correto.

 

Dada à trabalhosa conferência que isso representava, passou-se a utilizar um truque aritmético para verificar a exatidão dessas contas que se tornou conhecido como a "prova dos noves" ou dos "noves fora". Na verdade, tratava-se de um teste de validação de um cálculo manual utilizando-se apenas os números de entrada e saída do cálculo e com essa prática muitos erros ocasionais poderiam ser descobertos.

 

Por ser bastante fácil, essa prova tornou-se uma regra utilizada até pelas crianças na escola. Quando garoto, ao aprender a "prova dos noves", lembro-me de ter ficado orgulhoso desse aprendizado, pois pensava que nunca erraria uma soma desde que fizesse esse teste, todavia posteriormente descobri que essa "prova" não era tão exata como se imaginava. Hoje com o avanço tecnológico raramente se fazem "cálculos de cabeça" dada a grande variedade de equipamentos para esse fim.

 

A esta altura o prezado leitor poderá estar a pensar que neste artigo irei desenvolver um assunto aritmético. Não é bem assim! De fato, iremos avaliar a impactante pergunta do Senhor Jesus: "Onde estão os nove?", contida no versículo 17 do trecho de Lucas 17:11-19.

 

Em Sua longa jornada rumo ao Calvário, ainda que não fosse direto, Ele passou pelo meio de Samaria e Galileia (v. 11) e ao entrar a uma das aldeias ali existentes dez leprosos O esperavam ansiosos para que lhes fosse concedida a cura do terrível mal que lhes afligia – a lepra.  Só que tinham que ficar muito distantes d’Ele (vs. 12 e 13a), pois não podiam entrar na aldeia por serem considerados imundos e, por conta disso, tiveram que gritar para que fossem ouvidos pelo Senhor: “Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós” (v. 13b). A lei para os leprosos determinava que enquanto estivessem com aquela praga seriam considerados imundos e teriam que habitar isoladamente fora do povoado (Levítico 13:46). A lepra os afastava do seu convívio natural, assim como o pecado afasta as pessoas de Deus (Isaías 59:2).

 

Importante notar que nesse clamor os dez usaram a expressão “Jesus, Mestre”, num reconhecimento do Seu soberano poder e da Sua absoluta autoridade sobre todas as coisas, inclusive sobre os grandes males que afetam a humanidade. Eles tinham total convicção que Jesus era o único que podia atender aos anseios de suas aflitivas almas. Essa expressão no idioma original (epistates) poucas vezes foi usada pelo seu profundo significado, uma delas foi por Pedro quando maravilhado contemplou todo o magnífico esplendor do Senhor Jesus no monte da transfiguração, em cuja oportunidade ouviu a voz que dizia: “Este é o meu amado Filho; a ele ouvi” (Lucas 9:33). Isto nos remete a uma profunda reflexão, prezado leitor, a quem estamos a ouvir tendo em vista as tantas vozes dissonantes ouvidas em nossos dias acerca daquilo que deveria ser autêntico: a sã doutrina?

 

Vendo-os, Jesus Se compadeceu. Seus olhos viram aquilo que nenhum outro conseguiria ver, além da carne apodrecida que carregavam sobre os seus ossos eles careciam da Redenção que somente o Senhor Jesus poderia lhes oferecer. Neles não havia nenhuma beleza. A doença os tornara repugnantes aos olhos das demais pessoas. Cheiravam mal, careciam do sopro divino para que passassem a exalar um aroma agradável. Disse-lhes então Jesus: "Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes. E aconteceu que, indo eles, ficaram limpos" (v. 14). Simples assim! Para Deus não há nada impossível. Nada há que não esteja ao alcance da Sua sublime vontade.

 

É agora, caro leitor, que vamos tirar a “prova dos noves” mencionada na introdução desta crônica. Antes, permita-me uma pergunta: O que você faria se alcançasse tão extraordinária bênção? Iria à casa se banhar? Tomar uma farta refeição? Correria para seus familiares e vizinhos para lhes mostrar a cura de tão grave enfermidade? Ou voltaria de imediato para Aquele que sem lhe conhecer manifestou tão grande apreço? Afinal, Jesus foi o único que de fato manifestou compaixão e terno carinho àqueles leprosos. Todos os rejeitavam, mas somente Ele, exclusivamente Ele, revelou algo incomparável que nenhum outro faria: a revelação do Seu grande amor. O amor é o maior dom que hoje temos das três coisas que aqui permanecem: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor” (1 Coríntios 13:13). Vamos ao texto!

 

"E um deles, vendo que estava são, voltou glorificando a Deus em alta voz; e caiu aos seus pés, com o rosto em terra, dando-lhe graças; e este era samaritano. E, respondendo Jesus, disse: Não foram dez os limpos? E onde estão os nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te, e vai; a tua fé te salvou" (Lucas 17:15-19). Quanta ingratidão! De dez, noves fora, um. Somente um? Senti os meus olhos a marejar. Parei de digitar. Por um átimo de tempo fiquei prostrado sobre o teclado. Foi como se ouvisse uma pergunta que estremeceu o mais profundo do meu imo: “Quantos não agem dessa forma em nossos dias”? Essa é a mesma pergunta que lhe faço, querido leitor.

 

Ali estava, perante Jesus, alguém que O procurara não por um interesse material ou somente pela cura física, mas alguém que estava disposto a tê-Lo como seu Senhor e Salvador. Não sabemos o nome desse samaritano, um estrangeiro desprezado pelos judeus, mas de uma coisa temos certeza, ele era um homem de fé. Ele não fez um mero pedido como os “noves fora”, ele tinha absoluta fé que o Senhor Jesus era o único que poderia lhe conceder o que tanto desejava.

 

Ele nos deixou o ensino de que não devemos nos aproximar de Deus somente quando somos alcançados pelas muitas crises e angústias existentes neste mundo tenebroso, mas devemos a Ele chegar todos os nossos dias aqui mediante a fé. O próprio Senhor Jesus nos deixou revelado que neste mundo passaríamos por aflições, mas que tivéssemos bom ânimo, pois Ele venceu o mundo para nós (João 16:33). A nossa esperança não está nas coisas aqui de baixo, mas nas lá de cima, de onde virá o nosso Redentor (Filipenses 3:20). Pela fé somos mais que vencedores desde que não permitamos que nada, absolutamente nada, nos separe do amor de Deus (Romanos 8:31-39).

 

Que gozo inefável foi para aquele homem ouvir: “a tua fé te salvou” (v. 19). A cura alcançada não significava que automaticamente ele estivesse salvo. Era necessário que ele tivesse fé. O único meio de alcançarmos a Salvação é através da fé. Diz-nos o escritor de Hebreus, no capítulo 11, “sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam”.

 

Já faz bastante tempo que li sobre uma abnegada professora que havia dedicado sua vida a dezenas de turmas de alunos. Ao completar 80 anos recebeu uma carta de um de seus ex-alunos dizendo-lhe o quanto lhe era grato por sua ajuda. Ela havia ensinado por cinquenta anos e aquela foi a única carta de agradecimento que tinha recebido.

 

Já houve quem dissesse que a primeira roupa que a pessoa veste, quando nasce, é a da ingratidão e é a última que tira quando no caixão. Lembremo-nos, sempre, de que temos muito a agradecer a Deus. Que o nosso “muito obrigado” seja constante. Logo ao acordamos por mais um dia que Ele nos concedeu, digamos: Obrigado, Senhor! Poucos, de fato, têm um coração que reconheça isso. O que importa é que ainda que haja “noves fora” restará “um”. Tenhamos o mesmo sentimento deste “um” que se prostrou aos pés do Senhor Jesus em adoração.  Que este seja o sentimento em cada um de nós. Permita Deus que assim seja!

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