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CONVERSA ENTRE SURDOS
José Carlos Jacintho de Campos - 31/5/2014

Dentre os correios eletrônicos que costumeiramente recebo, um chamou-me bastante a atenção. Em seu conteúdo, de plano o autor fez questão de deixar claro a sua postura eclesiástica: “Sou Dizimista”. Nada contra, cada pessoa tem o direito de pensar ou ser o que melhor lhe convier, para isso possui livre-arbítrio, todavia quando ela passa a instar a outros com a alegação que esta prática é uma verdade bíblica para a Igreja de Deus, aí cabe uma reparação.

O que mais me impressiona, caro leitor, é que quanto mais se fala, se comprova ou se escreve sobre este assunto mais as pessoas fazem ouvidos de moucos. Parece “conversa entre surdos”, em que um dos interlocutores não presta atenção ao que o outro diz, pois o que prevalece é aquilo que o “mouco” acha e não importa que se prove o contrário, em sua mente aquilo transitou em julgado, como diriam os magistrados, portanto, para esses tais não cabe nenhum recurso que os faça mudar de ideia.


Pessoalmente já tive experiências desrespeitosas de pessoas que se levantaram em meio a uma palestra me questionando aos brados por entenderem o inverso. é até compreensível tendo em vista o hiato mental que não lhes permite a percepção do equívoco que cometem pelo fato de terem se deixado emprenhar pelo ouvir o engano e isto gera paixão e, como tal, embota o entendimento que acaba gerando desdobros desnecessários pelo partidarismo que sempre surge.


Ao longo de quase meio século muito tenho falado e escrito a esse respeito e, não querendo ser repetitivo, mas por certo sendo, mais uma vez torno a fazê-lo através de meus escritos já publicados, pois nada de novo há que se acrescentar tendo em vista que a Palavra de Deus é imutável.


Ao encerrar a sua primeira epístola aos coríntios, o apóstolo Paulo determinou àquela igreja local, como já tinha feito às igrejas da Galácia, que, no primeiro dia da semana, cada cristão colocasse à parte as suas “dádivas” ao Senhor, as quais seriam levadas aos santos em Jerusalém (1 Coríntios 16:1-3). Observe que nas epístolas no Novo Testamente nunca é usado o vocábulo “dízimo” como prática da igreja, mas sim “dádiva”.


Por que estaria ele orientando para que essa coleta ocorresse no primeiro dia da semana? A resposta é simples! Aos domingos, a igreja primitiva se reunia para partir o pão (Atos 20:7), e, para Paulo, as “dádivas” enviadas pela igreja chegavam a ele como aroma suave, como sacrifício aceitável e aprazível a Deus (Filipenses 4:18), ou seja, Paulo está afirmando que as nossas ofertas ao Senhor fazem parte do nosso louvor. Por isso, ele deixara determinado que elas fossem doadas aos domingos, tendo em vista que nesse dia a igreja se reunia para louvar ao Senhor através do memorial do Partir do Pão.


Neste mesmo sentido, o escritor aos hebreus exortou-nos a que, "por meio de Jesus, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome", deixando claro também que, juntamente com o louvor dos nossos lábios, não devemos nos esquecer de fazer o bem e de repartir com os outros, porque com tais sacrifícios Deus se agrada (Hebreus 13:15-16). Portanto, as nossas “dádivas” devem fazer parte do nosso "sacrifício", do nosso culto de louvor e adoração ao nosso Senhor.


Há que se notar algo extraordinariamente significativo no Novo Testamento: em nenhum momento é determinada à igreja qualquer forma legalista de ofertar ao Senhor, a exemplo do que ocorria com Israel através dos dízimos que eram ofertados no Templo em Jerusalém. Para a igreja não há a escravidão da Lei, mas a liberdade da graça; para a igreja não há limites percentuais, mas liberalidade e generosidade dos corações. Portanto, não façamos como os insensatos gálatas, colocando-nos sob os preceitos da Lei, pois “para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permaneçamos, pois, firmes e não nos submetamos de novo ao jugo de escravidão" (Gálatas 5:1).


As igrejas denominacionais, bem como alguns legalistas entre nós, esforçam-se em colocar sobre os cristãos o antigo jugo da Lei, chegando até a distorcer as Sagradas Escrituras alegando que o Senhor Jesus Cristo e o escritor aos hebreus mantiveram a obrigatoriedade do dízimo para a igreja. Texto fora do contexto é pretexto. Em Mateus 23:23 e Lucas 11:42, duas das passagens por eles invocadas, o dízimo é citado em meio às severas censuras e advertências que o Senhor fazia à hipocrisia dos escribas e fariseus. Em nenhum momento o Senhor Jesus estabeleceu a prática do dízimo para a igreja. A outra citação que sempre fazem está em Lucas 18.12 na parábola do fariseu e do publicano, cujo ensino não diz respeito à obrigatoriedade do dízimo, mas do pecado da soberba e da exaltação. Quanto às referências ao dízimo no capítulo 7 de Hebreus, nada têm a ver com a contribuição na igreja, são apenas comentários da prática então vigente, cujo único objetivo é provar a superioridade de Cristo, jamais ensinar à igreja o pagamento compulsório do dízimo.


Quando o Senhor falou em dar, Ele não Se limitou à décima parte de alguma coisa, mas ao todo. No diálogo mantido entre o Senhor e o jovem rico, que no seu legalismo acreditava estar cumprindo todos os preceitos da Lei, o Senhor lhe disse: "Uma coisa ainda te falta: vende tudo o que tens, dá-o aos pobres, e terás um tesouro nos céus; depois vem, e segue-me” (Lucas 18:22). O Senhor Jesus não disse ao jovem que doasse dez por cento dos seus bens e o seguisse, mas que tivesse o desprendimento de entregar tudo.


Em outra oportunidade, estando o Senhor no templo, assentado defronte ao cofre das ofertas, observava a multidão a colocar dinheiro no cofre e notou que muitos ricos punham muito, mas uma viúva pobre depositou duas pequenas moedas, no valor de um quadrante, a moeda romana de menor valor. O Senhor exaltou a atitude daquela senhora: "Chamando os seus discípulos, disse-lhes: Em verdade vos digo que esta viúva pobre depositou no gazofilácio mais do que o fizeram os ofertantes, porque eles ofertaram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua pobreza deu tudo quanto possuía, todo o seu sustento” (Marcos 12:41-44). Jesus contempla o todo, não a parte, porque Ele veio para servir e dar, e Ele não Se deu parcialmente, mas deu-Se por completo, totalmente, pois Ele deu a Sua própria vida em resgate por muitos (Mateus 20:28).

Diante destes fatos, conclui-se que a igreja não está limitada aos percentuais da antiga dispensação, mas beneficiada pela espontaneidade dos corações dispostos a entregar tudo ao Senhor, mesmo porque o dízimo do passado dizia a respeito do serviço do Templo em Jerusalém, ao passo que as “dádivas” do povo de Deus têm em vista todas as necessidades da obra de Deus.


Neste assunto de contribuição dos cristãos, há que se acentuar que a graça é, em tudo, maior que a Lei (Mateus 5:21-48), logo, as “dádivas” da igreja têm que ser acentuadamente maiores que o dízimo.


A igreja primitiva tinha esse entendimento, e o Espírito Santo despertou naqueles corações o sentimento da generosidade, e entre eles não havia necessitados, porquanto os que possuíam bens, vendendo-os, traziam os valores correspondentes (Atos 4:34), ou seja, traziam 100% do valor. Por definição, esse percentual não se refere ao dízimo, mas à “dádiva”. Como importante exemplo dos primeiros cristãos, o Espírito Santo deixou registrada, para o nosso ensino, a “dádiva” de Barnabé, que, "como tivesse um campo, vendendo-o, trouxe o preço e o depositou aos pés dos apóstolos" (Atos 4:37). Portanto, ele deu tudo o que possuía.


Nunca é demais lembrar o exemplo dos cristãos da Macedônia, que, em meio a muitas tribulações e profunda pobreza, deram tudo o que tinham, com alegria, porque primeiramente tinham se dado ao Senhor (2 Coríntios 8:1-5).


Mesmo em nossos dias existem muitos exemplos de servos que se propuseram a dar tudo ao Senhor. Um destes, quando era ainda bem jovem, reunia-se em uma pequena igreja em uma cidade do interior e, para cobrir as suas despesas, trabalhava numa empresa. Apesar de ganhar muito pouco ele resolveu investir na obra do Senhor e começou a ofertar suas “dádivas” na proporção de 10% sobre o seu salário e começou a perceber que o Senhor Se agradava da sua fidelidade e cuidava dele. Aumentou as suas “dádivas” para 20% sem nenhuma perda. Esse processo continuou até que chegou a dar 80% da sua renda para a obra missionária. Para poder entregar as Suas “dádivas” ao Senhor, durante um bom período da sua vida ele só comia ovos fritos, cozidos ou mexidos, porque eram mais baratos. Com isso ele aprendeu tão bem a dar, que um dia resolveu dar tudo. Ele entregou seus bens e a sua vida para serem consumidos em tempo exclusivo em prol da gloriosa obra missionária.


Que diremos à vista disto? Não há a menor dúvida de que Barnabé, os cristãos da Macedônia, o servo acima mencionado, e tantos outros, passaram a dar tudo porque se libertaram da escravidão da Lei, tendo plena compreensão da supremacia desta atual dispensação, a da igreja, que em tudo é superior à anterior. Se continuassem presos ao legalismo do dízimo, jamais chegariam aos 100% das “dádivas”.

 

Portanto, qual é o ensino para a igreja a respeito das nossas “dádivas” ao Senhor? Quanto devemos ofertar? O Novo Testamento é bastante explícito acerca dessa nova proporção e jamais afirma que ela tem semelhança com o dízimo, pois, perante a “dádiva”, o dízimo torna-se insignificante. A nova proporção tem a ver com a imensidão da graça que recebemos:

 

  • Conforme as nossas posses (Atos 11:29);

  • Acima das nossas posses (2 Coríntios 8:3);

  • Conforme a nossa prosperidade (1 Coríntios 16:2);

  • Com liberalidade (2 Coríntios 9:13);

  • Na proporção da nossa fé (2 Coríntios 9:7).


Não nos deixemos enganar, libertemo-nos dos grilhões do antigo legalismo e sejamos voluntários, generosos e abundantes em nossas “dádivas” ao Senhor, porque Deus não Se deixa escarnecer, com Ele não se brinca (Gálatas 6:7-10); a nossa omissão revela falta de amor (1 João 3.17), e sem piedade a nossa fé por si só é morta (Tiago 2:14-18).


Portanto, prezado leitor, não nos prendamos à compulsão da Lei, mas correspondamos ao amor de Deus na medida em que ofertamos liberalmente as nossas “dádivas”, com alegria e sem constrangimento, porque Ele ama a quem dá com alegria (2 Coríntios 9:7). Permita Deus que assim seja!

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