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SUA EXCELÊNCIA, O FATO
José Carlos Jacintho de Campos - 30/4/2014

Chegou-me às mãos um panfleto que me chamou à atenção pela pergunta lançada: “Que denominação é esta?”. Intrigado, li o texto que em parte transcrevo aqui para juntos fazermos uma reflexão:

 

“Sem dúvida é uma pergunta sábia, especialmente nestes dias de tanta confusão. Mas o que teria acontecido se a mesma pergunta houvesse sido feita nos dias dos apóstolos? Suponhamos que você tivesse vivido naquela época, e um dia se encontrasse com o apóstolo Pedro e lhe perguntasse: Pedro, que denominação é esta? Você pode imaginar a resposta? Pedro, sem dúvida, teria coçado a cabeça completamente perplexo porque não havia denominações na sua época... é possível fazer-se membro de uma igreja feita por homens, e depois, deixá-la se não ficar satisfeito, mas nunca poderia fazer a si mesmo membro da Igreja de Deus, a qual é chamada a igreja do Deus vivo (1 Timóteo 3:15)... Sua igreja não é denominada, isto é, não tem nome dado pelos homens, nem é uma organização humana, é composta de pessoas salvas... (Atos 2:47). Passa a levar então o nome do Seu Salvador e é feito uma nova criatura em Cristo (2 Coríntios 5:17). Não necessita de outro nome e nem precisa fazer-se membro de algo inventado pelos homens... Durante o tempo primitivo da Igreja, os crentes se reuniam simplesmente para estudar a Palavra. Não havia nomes ou organizações denominacionais e nem o mecanismo da atualidade... Deus não é o autor de nenhuma denominação... Os cristãos primitivos não se denominavam ou tinham nomes postos por eles. Eram conhecidos por tais termos como discípulos, crentes, santos, cristãos, ou qualquer outro nome que pudesse ser levado por todos os crentes. Não temos nenhuma base bíblica para levar um nome que não possa ser levado por todos os filhos de Deus neste mundo. Fazer isto é querer dividir um só corpo de Cristo: ...assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo (1 Coríntios 12:12)”.

 

Não sei quem foi o autor desse texto e tampouco quando o escreveu, mas é de indiscutível realidade, principalmente em nossos dias em que as denominações tidas como cristãs chegam a centenas de milhares em termos mundiais. Há “nome” para todos os gostos, alguns deles sobremodo exóticos, beirando a galhofa. é impossível chegar-se a uma quantidade exata dessas “denominações cristãs” tendo em vista que somente no Brasil diariamente há registros de novas instituições “evangélicas” em algum dos cartórios espalhados pelos 5.570 municípios brasileiros e torna-se tarefa extremamente difícil se medir a quantidade exata das denominações existentes.

 

Alguns dados estatísticos dão conta que em 2020 poderá haver no Brasil mais de 100 milhões de “evangélicos” e cerca de 600 mil “igrejas cristãs” instaladas. Talvez, caro leitor, como muitos, você poderá estar dizendo em seu pensamento: “Que maravilha”? Mas aí surge a intrigante pergunta: “Quantas dessas denominações realmente são cristãs no sentido estrito da Palavra”? Convém termos em lembrança que o crescimento da Igreja vem de Deus (1 Coríntios 3:6), ao passo que dos homens vem o “inchaço”! Deus tem filhos, aqueles que a Ele se achegam espiritualmente renascidos (João 3:7), não meros prosélitos que de fato vão à busca de seus interesses pessoais, estimulados que são por homens ávidos por poder e pelos “benefícios” materiais neles contidos.

 

Portanto, estamos diante de um fato, ou melhor, de Sua Excelência, o Fato, pois diante dele a imensa maioria das igrejas tidas como cristãs estão a se curvar por terem enorme dificuldade de se reunirem como igreja se não houver um rótulo que as identifique. Sem uma institucionalização se sentem despidas perante um segmento que exige uma identificação formal; depois não sabem o porquê da enorme ascensão do islamismo que, em termos globais, já ultrapassou os cristãos em quantidade de seguidores. Há quem assevere que hoje há mais de dois bilhões de muçulmanos pelo mundo afora. Em breve eles dominarão a Europa, mais especificamente a França e a Inglaterra, pelo crescimento da prole por eles gerada em comparação com a dos ingleses e franceses, em poucas décadas serão a maioria dos que ali estarão a habitar.

 

Como não poderia deixar de acontecer, com a segmentação do cristianismo provocou-se um separatismo com o surgimento de hermeneutas nessas inúmeras denominações criando entendimentos de cunho pessoal dos textos contidos nas Sagradas Escrituras; daí estarmos a contemplar a bagunça generalizada de interpretações no meio denominado evangélico. Seria algo como que o Espírito Santo estivesse arrependido da inspiração por Ele dada aos antigos escritores das Sagradas Escrituras e agora estaria desdizendo aquilo que fora por Ele revelado. Na verdade, não pode haver duas interpretações para um mesmo texto contido na Palavra de Deus, caso isso ocorra uma delas certamente estará errada.

 

Para conserto desse engano seguiu-se o caminho do remendo interpretativo. Por definição, coisa remendada não dá certo, se mantém por pouco tempo, o Senhor Jesus deixou isso claro: "Ninguém tira um pedaço de veste nova e o põe em veste velha; pois rasgará a nova, e o remendo da nova não se ajustará à velha" (Lucas 5:36). Mas em nossos dias os “doutores em divindade” não estão a se preocupar com o que está revelado, mas na adaptação daquilo que seria a igreja dos tempos modernos.

 

Como resolver isso para que houvesse um convívio entre as denominações? Simples! “Somos todos irmãos em Cristo, mas cada denominação é autônoma em sua exegese”. Para isso criam-se as doutrinas básicas de fé, que as unem, e as complementares para ajustarem as suas práticas eclesiásticas, todavia não dizem que de fato são as complementares que os separam. Puro remendo! Não existe isso na Palavra de Deus, é invenção humana de duvidosa inspiração, por certo não virá de Deus, pois Ele não é titubeante como os homens.

 

Algo “aborrecente” é costumeiramente se ouvir isto: “A autonomia da igreja local tem que ser respeitada”. Que história é essa? Desde quando uma igreja que se diz ser a de Deus pode ser “autônoma” diante daquilo que está estabelecido nos textos sagrados? Convém lembrar aos mais desavisados que esse vocábulo – autonomia – não existe nas Escrituras, mesmo porque o seu significado é a capacidade de se autogovernar, ao passo que em termos bíblicos o inverso é absolutamente verdadeiro, um cristão autêntico deverá ser totalmente “dependente” de Deus em todas as suas realizações. Não é demasiado lembrar que em termos gramaticais “dependência” é o antônimo de “autonomia”. Logo, como diz o adágio popular, “para o bom entendedor meia palavra basta, para quem sabe ler um pingo é letra”.

 

Mas voltemos à Sua Excelência, o Fato. No contexto de igrejas em que me reúno evitou-se ao longo das décadas o uso de uma denominação. Mas não resistiram e de início surgiu a identificação de a “igreja dos irmãos”, que foi fortemente contestada por W.E. Vine (1873-1949), a saber:

 

“A denominação "Os Irmãos", como aplicada às congregações de crentes que procuram ser guiadas apenas pelos princípios das Escrituras em seus encontros, é uma designação absolutamente incorreta... A denominação é falsa em mais de um aspecto. é contrária ao ensino das Escrituras, que, no sentido espiritual da Palavra, inclui todos os crentes e não dá nenhuma justificação para qualquer terminologia denominacional assim. Além disso, ela sugere algo que é absolutamente sem fundamento, ou seja, que as congregações locais às quais o termo é aplicado estão agrupadas em uma união denominacional, um sistema eclesiástico, enquanto que o Novo Testamento ensina, como um princípio fundamental relativo às congregações locais, que cada uma permanece sobre a sua própria base em dependência do Senhor somente e na sujeição à orientação e ao ministério, não de alguma união ou organização, mas do Espírito Santo, que vive dentro de cada igreja local como sendo Seu Templo da localidade. Esse princípio é mantido pelas várias congregações das que estão simplesmente procurando aderir de verdade às Escrituras como o guia todo suficiente a respeito da vontade de Deus, e como “pela fé que de uma vez para sempre foi entregue aos santos” (Judas 3) – “uma vez para sempre" é como dizer que é a revelação final do Espírito de Deus para Seu povo. A própria adesão dessas congregações ao ensino do Novo Testamento lhes causa (ou devia causar) com que rejeitem a incriminação de que constituem uma seita chamada erradamente de "Irmãos". é significativo que nenhuma placa denominacional assim é colocada por fora dos edifícios onde se reúnem essas congregações”. Recomendo a leitura na íntegra dessa matéria no Boletim dos Obreiros (https://www.obreiros.com/fatos-e-relatos/114-w-e-vine).

 

Nos dias atuais, notadamente aqui no Brasil, adotou-se a denominação “Casa de Oração”, que já erra no enunciado do seu princípio tendo em vista que “casa oração” está a indicar o “local” em que os cristãos estão a se reunir não se tratando, portanto, de uma denominação como estão a adotar. Inobstante a isso esse nome foi assumido por um grupo neopentecostal que não se identifica em nada com o contexto de igrejas que se reúnem na simplicidade do Senhor Jesus.

 

Outro grande equívoco é observado! Por uma questão legal ou fiscal, muitas das igrejas locais se organizaram em “corpo jurídico” a fim de possibilitarem, dentre outras coisas, a movimentação de contas bancárias para os recursos angariados através das dádivas dos seus membros assim como gerirem os seus assuntos de cunho administrativo e social que em nenhuma hipótese poderia ser confundido com o “corpo espiritual” que é a Igreja de Deus. Para que obtivessem esse reconhecimento institucional necessário foi a criação do nome do “estabelecimento”. Não demorou muito para que começassem a usar essa identificação jurídica como denominação da igreja local, por exemplo: Igreja Cristã Evangélica Casa de Oração de... O pior é que disso veio outro enorme equívoco, o diretor-presidente do “corpo jurídico” passou, em algumas localidades, a ser identificado como o “presbítero-presidente”, algo tremendamente absurdo, pois essa figura inexiste na Palavra de Deus.

 

Eis a Sua Excelência, o Fato! Mesmo aqueles que se esforçavam para não se distanciarem dos princípios contidos no Novo Testamento para a Igreja de Deus, já não mantêm a mesma têmpera de outrora. Isto nos remete a Paulo: "Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo" (2 Coríntios 11:3). Bem-vindo será o surgimento de um reavivamento mediante o cumprimento da Palavra de Deus, a fim de que se deixem de lado os apelidos que procuram identificar aqueles que se reúnem com autenticidade em torno de seu Senhor e Mestre. Permita Deus que assim seja!

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