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TRÊS TEORIAS DE UMA MESMA ORIGEM
José Carlos Jacintho de Campos - 5/2/2013

Predestinação, Purgatório, Perda da Salvação


Em Atos 17.26 Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, deixa bastante claro que "Deus fez toda a raça humana de um só...", ou seja, Deus fez um único homem e os demais são da descendência do primeiro homem. Isto é reafirmado pelo mesmo Paulo em 1 Coríntios 15:45-49.


É extremamente gratificante sabermos que esse único homem foi feito à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1:26-27). Todavia, em nenhuma hipótese devemos supor que essa imagem e semelhança sejam físicas, pois Deus não tem um corpo material como nós, Ele é Espírito (João 4:24) e a Bíblia ensina que um espírito não tem carne nem ossos (Lucas 24:39). Portanto, a imagem e semelhança com que Deus nos dotou são de ordem exclusivamente espiritual e moral.


Por ter sido o homem feito à imagem e semelhança de Deus, tinha de ser necessariamente dotado de inteligência, pois, caso contrário, não haveria nenhuma semelhança entre o Criador e o ente criado. Tanto isto é verdade, que Deus deu ao primeiro homem o privilégio de nominar todos os animais da terra, exercer domínio sobre todas as coisas criadas e assumir a responsabilidade pelo crescimento populacional do mundo inteiro. Para essas importantes tarefas, Deus criou o homem com inteligência e, consequentemente, com absoluta faculdade de livre escolha, pois se não houvesse o livre-arbítrio, ou seja, o livre exercício da vontade na tomada de decisões, não haveria nenhuma semelhança entre Deus e o homem.


Deus, o onipotente Criador de todas as coisas, soberano em todos os Seus desígnios, quis outorgar ao homem a faculdade de livre escolha, mesmo tendo a presciência de que a Sua criatura não faria bom uso desse privilégio. Ele não criaria um fantoche, que Lhe executasse automaticamente as ordens, simplesmente para evitar que a Sua criatura fizesse uma escolha infeliz. Se não houvesse livre-arbítrio o homem não seria um ser inteligente, o que contrariaria todos os planos e propósitos de Deus.


O mesmo ocorreu com a criação dos anjos. Por possuírem livre-arbítrio, alguns escolheram servir ao anjo caído em lugar de Deus e Deus respeitou a escolha errônea. De igual modo, Deus respeitou a escolha errônea do primeiro homem, mas tanto o anjo caído e seus seguidores, como também Adão tiveram que arcar com as consequências da escolha que fizeram porque Deus os fez seres responsáveis. Se não fosse assim, poderíamos estar concordando com alguns hereges que afirmam que foi Deus quem criou o mal, pois tanto o diabo como Adão teriam sido predestinados para o mal.


Não nos cabe questionar a soberania e sabedoria de Deus, inventando teorias e tradições humanas que em nada dizem respeito à sã doutrina e aos desígnios de Deus. Quando os discípulos do Senhor Jesus repreenderam aos que trouxeram algumas crianças para que Jesus lhes impusesse as mãos e orasse, o Senhor lhes disse: "Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus" (Mateus 19:13-14). Por que Jesus fez essa inédita afirmação? Simples! O pecado está na vontade e os bebês estão isentos do pecado originado da errônea vontade de Adão, visto que ainda são incapazes de desejar livremente por ainda não terem o discernimento do livre-arbítrio. Não é inteligente, nem espiritual interpretar que enquanto crianças todos os bebês estejam predestinados à salvação e, com o seu crescimento, de um momento para outro, deixem de ser eleitos e passem a ser predestinados à perdição eterna.


Esse foi um dos grandes dilemas de Agostinho, conhecido teólogo do século V, precursor dos rudimentos da teoria da predestinação e do purgatório, o qual, na defesa das suas convicções pessoais, sustentou a ideia de que o pecado original nas crianças era voluntário, visto que ele procede do ato livre do primeiro homem e por isso o batismo das crianças era indispensável para remover a culpa que elas possuíam. Pronto, para Agostinho estava "resolvido" o conflito que surgira com a tese da predestinação. É oportuno ressaltar que, em nossos dias, os que defendem ardorosamente a predestinação adotam também o batismo de crianças. Seria isto mera coincidência?


Agostinho começou a insinuar a teoria da predestinação afirmando algo muito estranho: que cabia a Deus decidir quem receberia e quem não receberia a Sua graça, que Deus teria feito isto desde a eternidade e o número de "eleitos" estaria rigorosamente limitado, não sendo maior nem menor do que seria necessário para substituir os anjos caídos. Nessa sua alucinante teoria, Agostinho esbarrava no texto de 1 Timóteo 4:2, onde Paulo afirma com enorme clareza que "Deus deseja que TODOS os homens sejam salvos". Mesmo quando questionado, Agostinho defendeu a sua interpretação de que o que Deus de fato desejava era a salvação dos "eleitos" de todas as raças e tipos. Este grave erro de Agostinho é o mesmo praticado em nossos dias por algumas denominações, com uma ou outra variação de estilo.


A teoria da predestinação se transformou em uma grande armadilha para Agostinho por ocasião da morte da sua tão querida mãe (a Santa Mônica da igreja romana). Para onde ela teria ido – céu ou inferno? Essa era a questão que o martirizava diante dos conceitos da predestinação por ele defendidos. Ele tinha a sua mãe como uma pessoa admirável, mas não suficientemente perfeita para que estivesse entre os previamente "eleitos" por Deus. Agostinho desejava ardentemente que a sua amada mãe chegasse à contemplação de Deus e, em sua terrível angústia, passou a efetuar rezas a favor da sua alma e acender velas para que ela alcançasse a misericórdia de Deus. Esta atitude de Agostinho era menos uma teoria e mais um impulso do seu aflito coração. Em seguida, pediu ele aos membros da família, aos empregados, aos amigos, e depois aos fiéis da igreja, que rezassem por ela. As suas teses sobre a predestinação levaram-no à invenção do purgatório.


Até os anos 413 – 414 Agostinho imaginava uma situação "post-mortem" relativamente aberta. Depois passou a preocupar-se com certa frouxidão que surgira entre os cristãos e voltou a insistir nos "méritos" necessários para a salvação, por temer que a confiança na reza dos vivos se transformasse em uma displicência generalizada. Em face disso, o purgatório ora se parecia com o inferno, ora com o paraíso. Ficou, portanto, com Agostinho, estabelecido "um tempo de purgação" entre a morte e a ressurreição.


A "doutrina" do purgatório, originada na teoria da predestinação, estava lançada e pronta para ser oficializada. No ano 593 o papa Gregório I, o Grande, desenvolveu e confirmou a teoria do purgatório, "doutrina" segundo a qual "o purgatório seria um lugar de castigo temporário, cuja pena seria reduzida e o sofrimento aliviado através das indulgências conseguidas por meio de rezas, missas, e outros exercícios religiosos dos parentes e amigos da pessoa falecida". No negro período histórico da Inquisição essas indulgências se tornaram uma irresistível e grande fonte de lucro para a igreja em Roma.


No ano 1439 a "doutrina" do purgatório foi dogmatizada no Concílio de Florença e as consequências nós sabemos: milhões de almas sendo remetidas para tormentos eternos, visto que não existe o purgatório à luz da sã doutrina. Reitero o aspecto extremamente importante de que o purgatório originou-se na predestinação. Quando se quebra um princípio biblicamente estabelecido, nada impede que desastrosos desdobramentos venham em seguida. Os exemplos históricos são fartos, tanto no judaísmo, como no catolicismo romano e no protestantismo.


Com a reforma protestante promovida por Lutero no século XVI, surgiu o famoso teólogo João Calvino (1509 – 1564) defendendo, como fizera Agostinho, a teoria de que pelo decreto de Deus e para a manifestação da Sua glória, alguns homens e anjos são "predestinados" para a vida eterna e outros são preordenados para a morte eterna. Na mesma época surge o protesto exarado em 1610 por James Armínio, um professor de um seminário holandês, que se contrapunha à teoria de Calvino, afirmando que a livre escolha do homem permanecia e o ser humano somente seria salvo mediante a sua escolha de crer, ou não, na redenção efetuada pelo Senhor Jesus Cristo. Aqueles que criam, pela atuação do Espírito Santo, estavam salvos, ao passo que aqueles que recusassem o "dom" do Espírito Santo permaneceriam sob a condenação. Com os cinco pontos da sua tese, Armínio rejeitou a ideia de que as almas eram "previamente carimbadas" por Deus, conforme era proposto por Calvino.


Com isto surgiu a corrente calvinista, que defendia a predestinação, e a arminianista, que rejeitava a ideia do "carimbo das almas". O conflito foi tão grande, que foi convocado "pelos pais da reforma" um Sínodo realizado em 13/11/1618, o qual contou com a presença de 27 delegados de alguns países da Europa, a fim de examinarem os pontos de vista de Armínio. Após 164 sessões foram decretados "os cinco pontos do calvinismo" determinando a predestinação como um dogma religioso a ser seguido pelo já denominado "Movimento Protestante".

 

Como se vê, foi logo nos inícios da Reforma Protestante que surgiu a primeira grande divisão: de um lado os calvinistas, defendendo ardorosamente a predestinação e, do outro, os arminianistas, mantendo o entendimento do livre-arbítrio dado por Deus aos homens.


Todavia, o radicalismo das tradições humanas inexoravelmente leva aos extremismos. A paixão cega o entendimento e o bom senso! Não demorou muito para que alguns dos seguidores de Armínio deturpassem a tese por ele defendida, ao ensinarem que a liberdade de escolha dada ao homem era tão abrangente a ponto de possibilitar que até os regenerados pelo Espírito Santo pudessem perder a fé e, por conseguinte, a salvação. Estava criada, portanto, a hipótese da perda da salvação, apesar da promessa do Senhor Jesus garantindo que da Sua mão e da mão do Pai ninguém poderá arrebatar a alma que a Ele pertence (João 10:27-29).


A heresia da perda da salvação é avidamente defendida em nossos dias pelas denominações carismáticas para justificar os desvios de muitos dos seus seguidores que, após terem manifestado certos "dons", voltaram ao estado anterior à "conversão". Como explicar que alguém que exteriorizava "manifestações sobrenaturais" como sendo do Espírito Santo pudesse, posteriormente, blasfemar contra Deus? A explicação dada foi a de que o Senhor não lança ninguém fora, porém, o próprio indivíduo pode sair das mãos do Senhor por sua livre escolha, deixando com isso de ser habitação do Espírito Santo. A conclusão desse raciocínio é que seria possível ao crente mandar o Espírito Santo embora de si próprio. Há que se ter uma fé absurda para se crer num despautério desses.


Conforme vimos até aqui, a teoria da predestinação promoveu desdobramentos piores, como a invenção da "doutrina" do purgatório e da perda da salvação; e outros virão até que o "trem da apostasia" termine o seu longo trajeto.


A indiscutível verdade é que Deus não faz acepção de pessoas, não "carimba" previamente a ninguém, pois a Sua salvação é outorgada indistintamente a todo aquele que crê e recebe o Senhor Jesus como seu único e verdadeiro Salvador. Deus não favorece apenas a um grupo privilegiado que teria sido por Ele predestinado para a salvação. Conforme Atos 14:15-17, Deus, em todos os tempos, nunca deixou os homens ficarem sem testemunho de Si mesmo. Pelo contrário, Ele criou condições para que o ser humano, mesmo “tateando, pudesse achá-Lo, visto que Ele não se encontra longe de cada um de nós, pois TODOS nós (não somente os "predestinados") somos geração de Deus (Atos 17:22-31), pois "o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre os homens, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são por isso indesculpáveis, porquanto, tendo conhecimento de Deus não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes se tornaram nulos em seus próprios raciocínios..." (Romanos 1:18-32). Como, então, seriam tais homens indesculpáveis se tivessem sido predestinados por Ele, Deus, à perdição eterna? Só por isso vê-se que o argumento da predestinação carece da sabedoria de Deus.


Desde as mais antigas civilizações podemos constatar a afirmação de que Deus jamais deixou de Se revelar à Sua criatura e não precisamos ir muito longe para confirmarmos essa realidade. Basta contemplarmos a história da civilização Inca, aqui pertinho de nós, na América do Sul, cujo povo tinha o "sol" como o seu principal deus. Porém, por volta do século XV, um dos seus principais reis começou a questionar as credenciais desse deus, pois ele notou que bastava uma simples nuvem para reduzir a sua luz e que a duração dessa luz era apenas doze horas. Logo, não poderia ser Deus o deus em que eles criam. O rei concluiu que teria de existir um "Deus antigo, remoto, supremo e não criado", concluindo que o Deus verdadeiro é o Criador e que o seu deus – o sol – era algo criado por esse Deus Todo-Poderoso, Criador de todas as coisas.


Afirmar-se que Deus predestina uns para a salvação e outros para a perdição eterna seria o mesmo que dizer-se que o Juízo do Grande Trono Branco (Apocalipse 20:11-15) será uma grande farsa, pois que julgamento é esse em que as pessoas a priori já tinham sido destinadas à condenação eterna, sem nenhuma chance de redenção? Ou ainda, como deveria ser entendido o convite de Mateus 11:28... "Vinde a Mim TODOS, (ou vinde a mim os PREDESTINADOS?) que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” ...? Não é preciso muito esforço para se perceber que há algo muito estranho na teoria da predestinação.


Os defensores dessas três teorias alegam de forma veemente que existem muitos textos bíblicos que respaldam as suas interpretações. Isto não é nenhuma novidade, pois o próprio diabo e os religiosos da época de Cristo usaram os textos sagrados para O tentarem e para O colocarem à prova. Não existem duas verdades na Bíblia! Ela não se contradiz em nenhuma hipótese. Ela por si só se responde, portanto não devemos ir além daquilo que está revelado por Deus. Se houver dúvidas, as mesmas nos serão esclarecidas quando estivermos na eternidade com o nosso Redentor.


Certa feita um mui estimado irmão manifestou-me o seu entendimento de que as posições sobre estes assuntos são como as linhas paralelas de dois trens, que nunca se cruzarão, mas chegarão ao mesmo destino, com o que não pude concordar, porque a última estação de um deles será Laodiceia por ser o "trem da apostasia". Estejamos, pois, fora desse trem. Permita Deus que assim seja!

 

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