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O PASSO MAIOR QUE A PERNA (2)
José Carlos Jacintho de Campos - 12/4/2007

“Dai, pois, a César o que é de César”

(Mateus 22:21)

 

Era a última semana de entrega da declaração do imposto de renda. Como a tradição brasileira é deixar para os últimos dias o cumprimento dessa obrigação fiscal, naqueles dias que antecedem a entrega é grande a agitação e a lamúria por parte daqueles que têm que ajustar suas contas com o fisco.

 

Foi num desses dias que me deparei, ao sair do elevador no edifício onde eu trabalhava, com uma figura diferente, não só pelo seu trajar, todo de branco, como pelo semblante de uma pessoa extremamente desconfiada. Perguntei à recepcionista quem era aquela pessoa, tendo em vista que ali não atendíamos clientes, pois era uma área restrita do Banco.

 

A jovem, com um sorriso de certa forma revelador, me respondeu que se tratava do médico de um dos nossos gerentes. Pensando que alguém estivesse com problemas de saúde, me dirigi à sala daquele gerente e o argui a respeito. Ele de pronto me respondeu que estava tudo bem e aquela pessoa era o “profissional” que lhe vendia recibos de despesas médicas que ele usava para redução do recolhimento do imposto de renda, e fazia isso todos os anos.

 

Após adverti-lo, pois esse procedimento se caracteriza crime por sonegação fiscal, de imediato ele me respondeu: “Não sou somente eu, o “crentão” também compra esses recibos”. Ele assim se expressou porque sabia do meu testemunho de fé. Pois bem, fui à sala do “crentão” que me confirmou que também se utilizava desse ilícito procedimento.

 

Quando lhe indaguei como ele se sentia, ao praticar tal coisa, diante da orientação do Senhor para que déssemos a César o que seria de César, ele estava com a resposta na ponta da língua: “Ora, irmão, eu cumpro com aquilo que o Senhor Jesus determinou dando a César o que é de César... desde que César venha buscar”. Sem dúvida um acréscimo infame à Palavra de Deus. Ele jogava com a alternativa de que o fisco não estaria aparelhado suficientemente para pegar essas falcatruas, ainda mais quando tecnicamente bem montadas.

 

Passados alguns dias, após fazer a entrega da sua declaração, o “crentão” me procurou tentando se justificar que assim procedia por ser largamente sabido que o Governo fazia uma cobrança exacerbada de impostos tendo em vista que, a priori, o próprio Governo sabia que haveria sonegação e essa seria uma forma de compensação. Caso ele declarasse integralmente os seus ganhos o imposto complementar que teria que recolher seria extremamente abusivo. Aí ele me fez a pergunta fatal: “Você não pensa assim?”.

 

De imediato respondi que não! Ao contrário, eu até gostaria de pagar alguns milhões de imposto renda, pois, por certo, eu teria ganho mais de duas vezes do valor recolhido. É só uma questão de que lado se está. Em vez dele se preocupar com o quanto que recolheria ele deveria estar com as suas atenções voltadas para o quanto que lhe ficaria disponível, pois só recolhem mais imposto de renda aqueles que mais recursos angariam e se beneficiam desse ganho. Quantos há, em nosso meio, que lamentavelmente pensam da mesma maneira que esse “crentão”?

 

Esse acontecimento não me foi nenhuma novidade, pois num passado distante fui fortemente questionado por certos “empresários evangélicos”, que não concordavam com o meu pensamento, por sinal bíblico, a respeito desse assunto. Descaradamente asseveraram que se um empresário, evangélico ou não, recolhesse todos os impostos e contabilizasse todas as receitas certamente quebraria com a sua empresa. Ao final da conversa deixaram nas entrelinhas que eu era um tolo em pensar ao contrário.

 

Sabemos que não é só uma questão de ganho ou perda, mas de caráter! Partindo de um cristão não se trata somente de um crime previsto em lei, mas de um pecado perante Deus, pois se não bastasse o Senhor Jesus determinar que devemos cumprir com as nossas obrigações fiscais, a Palavra de Deus nos revela que devemos ser submissos às autoridades, mesmo que em nosso íntimo não concordemos com elas, tendo em vista que elas são constituídas por Deus. Pensar-se ao contrário não se limita a dar “o passo maior que a perna”, mas “passar a perna” em alguém instituído por Deus.

 

O saudoso irmão W. Paulo Jones era um inconformado com essa atitude e através da sua empresa de consultoria ele procurava demonstrar aos seus clientes, principalmente aos “empresários evangélicos”, que acima do crime fiscal está a ética cristã que deverá reger, também, os negócios empresariais. Ele definia bem o que seria isso: “Ética cristã nos negócios é o conjunto de valores morais e princípios ideais que os cristãos devem observar no exercício de uma profissão ou no desenvolvimento de seus negócios”.

 

Não foram poucas as vezes que ele foi tristemente ridicularizado por pensar em princípios e valores morais nos negócios, inclusive por pessoas cristãs do nosso meio, que até exerciam liderança em igrejas locais. Aliás, eu não poderia deixar de revelar a minha estupefação quando em certa ocasião um presbítero me disse com todas as letras que “imposto não é para ser pago, pois mais à frente o Governo lança uma anistia perdoando os sonegadores”. Valha-me Deus! O pior que ele tinha “cara de santo” e era tido como tal no seio da igreja local.

 

Se não bastasse a clara determinação do Senhor Jesus com respeito ao cumprimento das nossas obrigações fiscais, o apóstolo Paulo aborda o mesmo assunto com intensa clareza e inspiração: “Pagais a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor” (Romanos.13:7-8). Paulo assim escrevia por revelação do Espírito a fim de que todos estivessem sujeitos às autoridades superiores, porque não há autoridade que não proceda de Deus. Portanto, queiramos ou não, as autoridades existentes foram instituídas por Deus e aquele que se opõe às autoridades resiste à ordenação de Deus (Romanos 13:1-5).

 

Muitas são as justificativas para que os tributos não sejam recolhidos aos cofres públicos, e a mais usada pelos sonegadores, quer sejam cristãos ou não, é a de não concordarem com os governantes eleitos por serem corruptos ou incompetentes, dentre outras adjetivações. Não é isso que Paulo nos diz, ao contrário: “visto que a autoridade é ministro de Deus... é necessário que lhe estejais sujeitos... por esse motivo também pagais tributos, porque são ministros de Deus” (Romanos 13:4,5,6). Sobre este assunto sugiro a leitura da excelente matéria do irmão R. David Jones, “O Respeito Devido às Autoridades Políticas”, publicada em Fatos & Relatos no Boletim dos Obreiros 111, de abril de 2007, que também está disponibilizada no site www.obreiros.com.

 

Por inferência, irmãos, quem sonega tributo a um mandatário de Deus, como são os governantes, logo está passando a “perna em Deus”, não somente nas autoridades. Pense nisso! Evitemos dar “o passo maior que a perna”, também nessas coisas. Permita Deus que assim seja!

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